O cadastro de nascentes é fundamental para bons estudos hidrogeológicos.
Neste artigo, mostraremos como as informações das nascentes constituem a base para o entendimento da Hidrogeologia de uma área de estudo, além de fazer uma revisão abrangente e prática das atividades de pré-campo, campo e tratamento dos dados.
Mas, afinal, para que serve o cadastro de nascentes?
Essa atividade é crucial para fornecer os dados iniciais que fundamentam qualquer estudo hidrogeológico. Durante o cadastro, é feito o reconhecimento geral hidrológico e geológico da área de estudo, com a identificação de estruturas geológicas condicionantes de fluxo.
Os dados de nascentes, juntamente com dados de geologia, possibilitam a geração de mapas potenciométricos preliminares, que podem auxiliar na locação de poços e piezômetros.
A partir disso, pode ser estabelecida uma rede de monitoramento e podem ser realizados ensaios de aquífero que, por sua vez, permitem a elaboração de modelos conceituais e numéricos. Os dados de localização, cota e vazão de nascentes também são utilizados diretamente nos modelos.
Além disso, órgãos ambientais costumam exigir a realização do cadastro de nascentes para determinados empreendimentos.
Já sabemos para que serve a atividade, mas como ela deve ser feita?
Antes do “como”, é importante definir “quando” o cadastro de nascentes deve ser feito.
A resposta é simples, pois a ação deve ser realizada, preferencialmente, em período seco, para evitar confusões no cadastro (como cadastrar a cabeceira de uma drenagem efêmera, resultado de uma chuva em dias anteriores, como sendo uma nascente). Neste exemplo, os dados cadastrados não representam o comportamento estacionário (comportamento sem considerar variações sazonais) do sistema.
Para cadastrar as nascentes, é necessário fazer uma série de atividades pré-campo. Neste sentido, é preciso revisar os dados disponíveis da área, como cadastros e estudos hidrogeológicos anteriores, dados de geologia, hidrografia e topografia. A partir disso, é possível definir alvos e elaborar os mapas a serem usados em campo.
Quais mapas devem ser levados a campo?
É importante levar os seguintes mapas: mapa topográfico, mapa de drenagens (preferencialmente geradas automaticamente em ambiente GIS, com o máximo de detalhe possível – drenagens de primeira ordem em diante), mapa de nascentes cadastradas anteriormente, mapa de acessos, mapa geológico, além de mapa de bacias hidrográficas.
Outras atividades pré-campo devem ser realizadas e envolvem logística, como a separação dos equipamentos (GPS, bússola, medidores de parâmetros, balde para medição de vazão e martelo geológico), impressão das fichas de cadastro (com todos os campos para preenchimento), reserva de veículo e separação dos equipamentos de proteção individual (bota, perneira, chapéu, luvas, galochas e outros).
Concluídas essas etapas, é possível ir a campo.
Mas afinal, qual é a melhor forma de chegar até as nascentes para obter todas as informações?
Em um cadastro de nascentes, o maior desafio é justamente chegar a cada nascente. Nos locais, podemos encontrar algumas dificuldades, como terreno declivoso, mata fechada, distância de caminhada e riscos à segurança (animais peçonhentos, quedas, entre outros).
Assim, torna-se essencial adotar uma abordagem estratégica para cada objetivo. Na área de estudo, não se deve percorrer áreas aleatoriamente em busca de nascentes. É imperativo seguir os talvegues, seja partindo do divisor de águas ou de um ponto com presença de água (descendo ou subindo a drenagem, para simplificar).
Ao chegar nas nascentes, não há segredos. Basta preencher os itens da ficha:
· Anotar as coordenadas;
· Medir os parâmetros físico-químicos;
· Fazer uma descrição geral da área (vegetação, geomorfologia, geologia etc.);
· Medir a vazão*.
*Para medir a vazão pelo método volumétrico, é necessário canalizar a água da nascente, de forma a possibilitar sua coleta em recipiente graduado, e cronometrar o tempo necessário para preencher uma determinada quantia (depende da vazão da nascente). Recomenda-se fazer a medição pelo menos três vezes e calcular a média, para diluir os erros.
Mas devemos registrar apenas as nascentes?
Não, não tem motivo para não aproveitar a ida a campo e registrar tudo que seja relevante para seu estudo. Podemos também fazer o registro de outras feições, como:
· Surgências;
· Usuários (se contratado);
· Sumidouros;
· Ressurgências;
· Drenagem seca;
· Piezômetros e poços (se houver)**;
· Pontos de controle (tudo o que não se enquadra nas categorias acima e ainda é relevante para a hidrologia).
**O cadastro de piezômetros e poços é importante, pois nem sempre o banco de dados da empresa contratante está correto – pode haver problemas de Datum, entre outros.
E como devemos chamar cada ponto?
É necessário criar códigos padronizados, que sintetizem o máximo de informação possível em um número razoável de caracteres. Por exemplo, uma nascente cadastrada em Florianópolis por uma equipe denominada “A”, poderia ser: FL-NA-01-A.
As duas primeiras letras indicam o local do cadastro. O segundo par indica que a feição é uma nascente (NA). Poderia ser uma drenagem seca (DS), um ponto de controle (PC) e assim por diante. O número indica a ordem de cadastramento e a letra indica a equipe. Se houver apenas uma equipe, bastaria o código FL-NA-01.
Importante
Além das fichas, caderneta de campo e GPS, recomenda-se também registrar os pontos em aplicativo no celular ou tablet. Existem diversas opções que permitem o registro dos caminhamentos, pontos e fotos vinculadas a pontos.
Esta é uma medida de redundância com os dados: caso você perca as fichas de alguma maneira, seu trabalho não estará perdido.
Seguindo o mesmo raciocínio, é recomendável tirar fotos das fichas e fazer upload dos dados do aplicativo para a nuvem sempre que estiver em local seguro, como hotel ou escritório.
Organização e Tratamento dos dados
Até aqui, cobrimos toda a parte do pré-campo e campo. Após a finalização da etapa de campo, inicia-se a etapa de organização e tratamento dos dados.
Para isso, é recomendável um sistema de gerenciamento de dados, como o Hydro GeoAnalyst (HGA). Por meio da importação dos dados neste software, é possível integrá-los aos outros dados disponíveis do projeto e lidar com tudo em um único lugar.
No contexto do cadastro de nascentes, a grande vantagem do HGA é a possibilidade da geração de relatórios automatizados. Inclusive, as fichas de nascentes podem ser preenchidas automaticamente por meio do HGA, evitando um processo demorado e trabalhoso de preenchê-las uma por uma no computador.
As fichas devem ser entregues ao cliente, como anexo de um relatório técnico das atividades.
E como deve ser feito o relatório?
O relatório deve ser simples: um descritivo geral das atividades, com tabelas consolidadas dos pontos cadastrados, mapas de nascentes e demais pontos cadastrados, assim como mapa de caminhamentos e mapa de hidrografia consolidada (com os pontos exatos de início dos cursos d’água, conforme verificado em campo).
O relatório deve incluir também comparações entre nascentes cadastradas anteriormente e nascentes cadastradas no estudo atual, correlações entre parâmetros e geologia, ou entre vazão e geologia.
Enfim, o relatório deve conter todos os dados e interpretações obtidas no estudo.
Em resumo, a atividade de cadastro de nascentes:
· Fornece dados fundamentais para estudos hidrogeológicos;
· É uma atividade relativamente simples e econômica, mas deve ser feita com planejamento, estratégia e rigor técnico;
· A segurança é fundamental na realização dessa atividade;
· O uso de tecnologias facilita todas as etapas, desde o pré-campo até o tratamento e apresentação dos dados;
· Ter um banco de dados estruturado é essencial para a organização e otimização dos dados obtidos.
O HGA é uma ótima ferramenta para este gerenciamento de dados.
Confira o webinar sobre cadastro de nascentes, ministrado pelo autor:
Autor
Vinícius Hickel
É hidrogeólogo modelador. Como hidrogeólogo de campo, atuou em extensas campanhas de cadastro de nascentes no contexto de mineração. Na Water Services and Technologies, elabora modelos hidrogeológicos conceituais e numéricos para empresas mineradoras e de saneamento.




