Com previsão de permanecer ativo até o início de 2027 e possibilidade de atingir intensidade muito forte nos próximos meses, o El Niño voltou ao centro das discussões sobre segurança hídrica, planejamento operacional e gestão de riscos no Brasil. Enquanto parte do país pode enfrentar estiagens mais prolongadas, outras regiões convivem com o risco oposto de excesso de chuva. É este contraste que torna o El Niño um dos principais testes para a gestão hídrica em 2026.
Nesse cenário, mais importante do que prever exatamente o que acontecerá é preparar sistemas e operações para responder a diferentes possibilidades. E é justamente essa capacidade de transformar previsões climáticas em decisões e estratégias práticas que diferencia uma gestão hídrica resiliente de uma gestão exposta aos riscos da variabilidade climática.
Quais as previsões do El Niño para 2026 e 2027?
Em junho de 2026, foi confirmada a configuração do fenômeno. Em agosto, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estimou que a chance do fenômeno atingir uma intensidade muito forte nos próximos meses é de 95%. No boletim de julho do Painel El Niño 2026–2027, os modelos indicam 100% de probabilidade de sua permanência até, pelo menos, o início de 2027.
Na prática, os efeitos do El Niño variam conforme a região e a época do ano. No Brasil, para o trimestre agosto a outubro de 2026, a tendência é de redução das chuvas médias em grande parte da região sudeste, norte e nordeste, enquanto a região sul tende a ter chuvas acima da média.
A titulo de informação, tem uma atualização dessa semana da agencia climática dos EUA, indicando que é 95% a chance de o El Niño atingir uma intensidade muito forte nos próximos meses.
Esses cenários climáticos representam o componente de “perigo” do risco climático, que representa a probabilidade e a intensidade de um evento extremo. Conforme a estrutura conceitual do IPCC, o risco climático resulta da interação entre três eixos: perigo, exposição (os ativos, populações e sistemas posicionados na área de influência do evento) e vulnerabilidade (a sensibilidade e a capacidade adaptativa desses sistemas). Isso significa que um mesmo cenário de estiagem, por exemplo, pode gerar impactos completamente distintos a depender do desenho operacional de cada sistema.
Diante desse cenário de incerteza, como devemos planejar e gerenciar os riscos da gestão hídrica, para condições que podem se afastar das referências históricas e evoluir de formas diferentes ao longo do tempo?
O que é o El Niño e por que ele acontece?
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizada pelo aquecimento anômalo das águas do oceano Pacífico Equatorial em relação à média climatológica. Esse aquecimento provoca alterações na circulação atmosférica, influenciando a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do planeta.
Para ser classificado como El Niño, a temperatura do oceano pacífico deve ultrapassar 0,5ºC por pelo menos 5 meses consecutivos. Quando a temperatura ultrapassa 1,5ºC é classificado como Forte, e quando ultrapassa 2ºC o El Niño é classificado como Muito Forte. Segundo dados da NOAA, no mês de agosto a temperatura já alcançou 1,8ºC.
Os dados aqui apresentados, são oriundos de um boletim mensal chamado Painel El Niño, produzido por Instituições Federais como INMET, INPE, ANA, CEMADEN, SGB, SEDEC e o CENSIPAM, e apresenta informações sobre o monitoramento e as previsões relacionadas ao fenômeno El Niño para o período de 2026 e 2027, bem como os possíveis impactos associados.
Os efeitos variam conforme a região, a época do ano, a intensidade do evento e sua interação com outros sistemas climáticos.
Três números para acompanhar
Para compreender a dimensão do cenário atual, três indicadores merecem atenção especial:
- 100%: probabilidade de manutenção das condições de El Niño até, pelo menos, o início de 2027, segundo os modelos apresentados no boletim de julho.
- probabilidade indicada pela NOAA de o evento alcançar a categoria de muito forte ainda em 2026
- 55 municípios: classificados em situação de seca severa na análise parcial de maio–junho–julho, ante 38 no trimestre anterior.
Os números ajudam a dimensionar o cenário, mas não substituem uma avaliação específica das vulnerabilidades de cada operação ou território.
El Niño x La Niña: qual é a diferença?
El Niño e La Niña são fases distintas do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS), associadas a diferentes condições no Oceano Pacífico Equatorial e a alterações nos padrões climáticos.
Enquanto no El Niño ocorre o aquecimento anormal do oceano Pacífico Equatorial, coforme explicado anteriormente, na La Niña….
El Niño
- Aquecimento anormal do Pacífico Equatorial.
- Tendência de menos chuva em parte do Norte e Nordeste.
- Tendência de mais chuva no Sul.
La Niña
- Resfriamento anormal do Pacífico Equatorial.
- Em diversas regiões, efeitos aproximadamente opostos aos associados ao El Niño
Um mesmo fenômeno, diferentes comportamentos entre as regiões
Uma das características mais importantes do El Niño é que seus efeitos não são uniformes.
De acordo com o boletim, no centro-norte do país, a combinação entre chuvas abaixo da média, temperaturas elevadas e períodos prolongados sem precipitação pode aumentar o número de queimadas, aumentar a evaporação, reduzir a umidade do solo, dificultar a recuperação dos rios e ampliar a pressão sobre fontes de abastecimento.
Na Amazônia Legal, o boletim de julho indica a possibilidade de prolongamento das condições típicas da estação seca, com redução da disponibilidade hídrica e atraso no estabelecimento mais regular do período chuvoso.
No Sudeste, 76% da área da região apresenta alguma categoria de seca em junho de 2026, incluindo 2% sob seca grave. Caso a estação chuvosa atrase ou seja desfavorável, o quadro poderá se agravar entre a primavera e o verão.
Já no Sul, o risco pode estar associado ao excesso de água. Eventos extremos de chuva, associados a um volume de chuva acima da média, aumentam a necessidade de acompanhar níveis de rios, capacidade de drenagem, estruturas de armazenamento, acessos, barragens, sistemas de bombeamento e condições de segurança operacional.
A seca atual já apresenta impactos de curto e longo prazo (CL), indicando duração prolongada. Esse cenário pode acelerar os impactos da seca, especialmente sobre a segurança hídrica e o abastecimento, já que, em muitos locais, as reservas de água ainda não foram totalmente recuperadas.
Para a gestão hídrica, é importante avaliar o cenário climático em conjunto com as características e o funcionamento de cada sistema.
Da previsão climática à decisão operacional
Previsões climáticas trabalham com probabilidades. Elas indicam se determinado período tem maior chance de apresentar chuva abaixo, dentro ou acima da faixa normal, mas não definem exatamente quanto choverá em cada ponto, em quais dias ou com que distribuição.
Por isso, as previsões sazonais são um dos elementos a serem considerados no planejamento, juntamente com as características e condições de cada sistema.
Para avaliar os possíveis efeitos sobre uma operação, as informações climáticas podem ser relacionadas a questões como:
- Quais processos dependem mais diretamente de água?
- Quais fontes de abastecimento apresentam maior vulnerabilidade?
- Qual é a autonomia dos reservatórios e estruturas de armazenamento?
- Quais níveis ou volumes de armazenamento mínimos são necessários para manter a operação?
- Quais estruturas podem ser pressionadas pelo excesso de chuva?
- Existem alternativas de abastecimento ou possibilidades de reúso?
- Quais indicadores devem acionar uma mudança na operação?
- Quem é responsável por decidir quando uma ação de contingência deve ser acionada?
- Qual o custo da água dentro da operação e o custo da estiagem?
O próprio Painel El Niño recomenda revisar instrumentos de contingência, fortalecer o monitoramento e a comunicação de riscos, integrar previsões e alertas ao processo de decisão e identificar previamente os recursos necessários para uma resposta rápida. Embora direcionadas principalmente a estados e municípios, essas recomendações reforçam princípios igualmente relevantes para organizações.
Esse raciocínio também está presente no conteúdo da WST sobre disponibilidade hídrica e os desafios das mudanças climáticas, que aborda a necessidade de combinar monitoramento, modelagem, diversificação de fontes e planos de contingência para antecipar riscos.
Governança hídrica: transformar informações em tomada de decisão
Dados e modelos são indispensáveis, mas não tomam decisões sozinhos.
Governança hídrica compreende o conjunto de responsabilidades, processos, critérios e instrumentos que orientam como as informações são incorporadas à tomada de decisão.
Uma estrutura de governança eficiente define quem acompanha os indicadores, quais limites representam situações de atenção ou criticidade, com que frequência os dados são revisados e quem possui autonomia para acionar medidas de contingência.
Também estabelece como as decisões estratégicas são incorporadas às rotinas operacionais e como riscos, indicadores e resultados serão comunicados aos diferentes níveis da organização.
Em cenários de redução da disponibilidade hídrica, as medidas podem envolver redução do consumo, reúso, controle de perdas, gestão de reservatórios, qualidade da água e avaliação de fontes alternativas.
Em cenários de precipitação elevada ou excesso hídrico, a atenção pode se voltar à drenagem, capacidade de armazenamento, resiliência das infraestruturas hidráulicas, qualidade da água, sistemas de bombeamento, erosão, estabilidade de acessos e controle de descargas.
Dessa forma, a governança cria as condições para que informações e indicadores sejam efetivamente utilizados na tomada de decisão.
Monitoramento: acompanhar as condições do sistema
O acompanhamento contínuo de dados permite identificar mudanças nas condições hídricas e operacionais e fornece informações importantes para apoiar o planejamento e a tomada de decisão.
Dependendo das características de cada operação, o monitoramento pode integrar diferentes tipos de informação:
- Meteorológicas: precipitação, temperatura e evaporação ou evapotranspiração;
- Hidrológicas e hidrogeológicas: níveis e vazões de rios, níveis e volumes de reservatórios e níveis de água subterrânea, qualidade da água;
- Operacionais: captação, consumo, reúso, lançamentos, volumes armazenados e demandas previstas.
A análise conjunta dessas informações permite acompanhar tendências e identificar alterações que possam afetar a disponibilidade de água ou a operação.
Dashboards podem integrar essas informações, facilitar a identificação de tendências e tornar indicadores críticos acessíveis aos diferentes níveis de decisão.
Mais do que acompanhar variáveis isoladas, o monitoramento permite relacionar as condições meteorológicas e dos recursos hídricos ao funcionamento da própria operação.
Balanço hídrico: compreender o funcionamento do sistema hídrico
O balanço hídrico representa as entradas, saídas e variações de armazenamento de água de um sistema. O sistema pode ser uma unidade de operação ou uma bacia hidrográfica, por exemplo.
Ele ajuda a responder perguntas como:
- de onde vem a água;
- onde ela é utilizada;
- quanto retorna ao processo;
- quais volumes são armazenados;
- onde existem perdas;
- quais circuitos dependem uns dos outros;
- como mudanças na disponibilidade de água podem afetar o sistema;
- quais fontes, usos ou processos são os mais críticos para a operação.
Uma previsão de redução da precipitação, por si só, não permite determinar seus efeitos sobre a disponibilidade de água para uma fábrica, mina ou outra operação. Essa avaliação depende do conhecimento das fontes de abastecimento, armazenamento, reúso, perdas e interdependências do sistema.
Modelagem estocástica: avaliando incertezas e riscos no planejamento hídrico
Muitos estudos tradicionais produzem um único resultado com base em um conjunto definido de dados e premissas. Essa abordagem determinística é útil, mas pode transmitir uma sensação de precisão maior do que aquela permitida pelos dados.
Imagine um reservatório com água suficiente para sustentar seis meses de operação nas condições atuais. Uma análise determinística pode projetar a evolução do armazenamento para um conjunto definido de premissas. No entanto, chuva, demanda e disponibilidade das fontes podem variar ao longo desse período.
A modelagem estocástica representa essas incertezas e variabilidades na análise, permitindo avaliar a faixa de resultados possíveis e a probabilidade associada a diferentes condições do sistema.
Dessa forma, é possível avaliar:
- intervalos plausíveis de resultados;
- probabilidades de atingir ou ultrapassar limites operacionais;
- Variáveis e incertezas que mais influenciam os resultados;
- desempenho de diferentes estratégias sob condições de incerteza.
Essa abordagem é especialmente útil quando as decisões dependem de variáveis difíceis de prever com exatidão, como precipitação, disponibilidade hídrica, recarga e demanda futura.
O objetivo é tornar explícitas as incertezas e avaliar como elas podem influenciar os resultados e as decisões.
A incerteza faz parte do planejamento e da gestão hídrica.
A incerteza não é um obstáculo à gestão. Em vez de impedir a tomada de decisão, ela reforça a importância de estruturar dados, avaliar diferentes cenários e estabelecer responsabilidades e critérios de decisão.
Preparar-se para o El Niño significa construir uma gestão hídrica capaz de responder às mudanças nas condições hídricas.
O El Niño 2026 reforça uma realidade cada vez mais presente na gestão dos recursos hídricos: eventos climáticos extremos deixaram de ser exceções e passaram a fazer parte do ambiente de decisão.
Em um contexto de maior variabilidade climática, a vantagem competitiva está em desenvolver capacidade para compreender as incertezas, monitorá-las, interpretá-las e responder rapidamente a elas.
Organizações que conseguem transformar dados climáticos em cenários operacionais tendem a responder melhor tanto aos períodos de escassez quanto aos eventos de excesso de água.
Como a WST pode apoiar sua operação
A Water Services and Technologies (WST) apoia organizações na avaliação de demanda e disponibilidade hídrica, desenvolvimento de balanços hídricos, modelagem hidrológica e hidrogeológica e fortalecimento da governança e gestão dos recursos hídricos.
Combinando geociências, engenharia, dados e tecnologia, desenvolvemos soluções que ajudam gestores a tomar decisões mais seguras diante de cenários climáticos cada vez mais complexos.
Sua operação está preparada para os impactos do El Niño?
Converse com os especialistas da WST e avalie como cenários climáticos, balanço hídrico, modelagem e governança podem fortalecer a segurança hídrica da sua organização.




